O empresário-padre-rei
Uma tarde com Antônio Rodrigues, o mais famoso e bem-sucedido cidadão de Salinas
“Bater no portão”, “telefone” e “perguntas sem respostas”, são essas as três mensagens que se vê logo ao entrar na casa de Antônio Rodrigues, o maior produtor de cachaça do país, também conhecido como seu Tonho. A estranha lista é das coisas que ele não gosta: Que batam no portão de sua casa; que ele tenha que atender o telefone enquanto está conversando com alguma pessoa e que ele seja surpreendido com perguntas “sem resposta” (em pouco tempo de conversa dá pra perceber que a noção de “sem resposta” é bem relativa). Mas estes são apenas alguns detalhes da vida de um dos mais notáveis cidadãos de Salinas que, tendo administrado mais de 30 empresas diferentes, encontrou na produção de cachaça artesanal os ovos de ouro que lhe tornariam um verdadeiro “rei”.
Ao conhecer mais um pouco sua casa, o que se vê é uma profusão de mensagens de efeito nas paredes, imagens de santos espalhadas pelos cômodos, a coleção de chapéus na parede da sala, apitos em quase cada cômodo para chamar as secretárias e, é claro, a simpática doberman que, apesar do tamanho assustador, é extremamente dócil com as visitas. Ao todo seu Tonho possui duas secretárias particulares sendo que, onde quer que ele esteja, ao menos uma estará por perto. E é em casa que ele dispõe de seus apitos para chamar as duas e a sua cozinheira: um silvo para Rose, dois para Fernanda (secretária que entrou há pouco tempo e ainda está “estagiando”) e três para Aureni, a responsável pela comida e que, diferente das outras duas, fica sempre na casa.
Não faltam elementos curiosos para descrever na casa de Antônio Rodrigues, todavia, na tarefa de acompanhá-lo falta tempo para saber mais sobre o singular ambiente. Como ocupado empresário que é ele está sempre com tarefas de sobra e não se importa de deixar os que não o acompanham para trás. Em poucos minutos então, saímos de sua casa e vamos à loja, que fica na mesma rua, poucos quarteirões acima...
Hoje com 62 anos e sete filhos criados (quatro com a ex-mulher e três fora do casamento) o maior produtor do país sempre viveu em Salinas e começou a trabalhar com 7 anos. Filho de pais “de classe baixa” como ele descreve, viu que todos seus amigos recebiam mesada menos ele e buscou sua “independência financeira”. Trabalhou então num estacionamento para animais que traziam carga da zona rural para a zona urbana nas sextas e sábados...
Chegando à loja da Seleta, uma das maiores da cidade, mais uma profusão de cachaças, quadros com fotos de famosos, parentes, charges de seu Antônio, certificados de qualidade, tudo isso em meio a inúmeras salas e funcionários trabalhando (ao todo são 150 funcionários em sua empresa). A loja existiu sempre no mesmo local e hoje possui, além das mercadorias à venda, 850 mil litros de cachaça em tóneis que podem ser visitados nos fundos. Mesmo nunca tendo saído de lá, Antônio garante que em dois anos vai mudar a loja de lugar, sem falar pra onde. Em meio à conversa ele conversa com os funcionários, resolve problemas e, numa ligeira parada no escritório, recebe o relatório das vendas do último mês e mostra sua coleção de bonecos e enfeites espalhada pela sala: “Tudo eu tenho mais do que qualquer pessoa, inclusive sorte”. As vendas 50% acima do previsto não deixam mentir. Mas logo temos que ir embora da loja, seu Tonho precisa ir à engarrafadora resolver alguns problemas...
Desde novo tinha jeito para negócios (“tenho visão, percepção e ação de imediato”, afirma), mas apenas na década de 70, quando namorava sua ex-esposa, que “descobriu” a cachaça. Estava na casa do pai dela, que era dono da marca Indaiazinha e, impressionado com o tanto que ele vendia, resolveu seguir a dica do sogro: “Ele ficou uma semana só contando dinheiro e me falou que um bom negócio pra ganhar dinheiro é o envelhecimento de cachaça”. Dois meses depois, seu Tonho havia mandado fazer dois tonéis e começado sua produção- “rachei de ganhar dinheiro e um ano depois já tinha quatro tonéis e a partir daí fui crescendo”...
Chegando à engarrafadora, uma incontável quantidade de tonéis: ao todo são produzidos 4,5 milhões de litros de cachaça anualmente, quase o triplo de todos os outros produtores de Salinas juntos. Mais uma passada no escritório, mas dessa vez tem que visitar os funcionários na área de engarrafamento para resolver um problema. Por um tempo seu lado administrador aflora e passa lições sobre a importância de se ter funcionários inteligentes, ambiciosos, que saibam resolver os problemas: “Vou passar a fazer uma palestra por semana, as pessoas têm que entender, vocês têm a solução e não tentaram”. Passado o sermão o simpático Antônio Rodrigues logo faz piada sobre a cara de medo dos funcionários e pouco tempo depois já caímos na estrada, dessa vez para conhecer os outros terrenos de seu Antônio.
No caminho, ao som de música sertaneja no carro, ele conta sobre suas ambições, projetos e até sobre religião. Estudou até os 33 anos, parou e depois de um tempo voltou para concluir o segundo grau. A partir daí se formou em Marketing, depois fez um curso sobre Gestão de Pessoas e ainda se formou em Administração. Todos os cursos ele fez em Salinas mesmo e diz que ainda pretende fazer Direito. Hoje ele ganha R$ 15 mil por uma hora de palestra, que ele costuma dar todos os meses (no máximo duas por mês) pelo SEBRAE, mas confessa que não “gosta” desse dinheiro e sempre doa tudo: “não misturo com meu dinheiro não, gosto de ganhar dinheiro é colocando os outros pra trabalhar pra mim ou administrando”, explica.
Essa é só uma das opções que ele tem pra fazer com tanto dinheiro: construir e doar 500 casas populares em 2015; construir um hospital para a filha trabalhar; comprar 50 consultórios odontológicos; comprar um jatinho para passear e um helicóptero em que caibam 50 pessoas. “Meu filho disse que num tem helicóptero para 50 pessoas, mas quem tem dinheiro compra dois e manda juntar”, brinca.
E a lista não acaba por aí: ao passar por suas terras, na saída da cidade, ele conta mais de seus planos: construir 3 condomínios fechados de 55 lotes cada um, construir 1500 lotes de 600 hectares para plantação de cana, construir 6 represas para irrigar esses canaviais, fazer uma pousada na sede de sua fazenda e, é claro, construir mais uma fábrica de cachaça. Ele nem teve trabalho para mostrar onde pretende fazer isso tudo: “Tá vendo aquele espaço ali, dali a uns 20 km pra frente é tudo meu, de um lado e do outro da estrada”, apontava.
Mas o hoje milionário empresário nem sempre foi assim. Quando adolescente queria ir para o seminário e virar padre, ideia que sua mãe logo proibiu. Ainda assim se tornou o mais bem-sucedido dos 6 irmãos e, à exceção da irmã que já trabalhou para ele e agora está aposentada, nenhum dos outros se aventurou na produção de cachaça. “Sou o dono da cocada preta, só quem destacou da família foi eu”, conta.
Atualmente se diz espírita e católico não-praticante, e sua solidariedade parece trazer de volta um pouco do jovem cristão: doa “feira” todo dia para alguém que precise, no Natal doou 800 cestas básicas, no dia das crianças 8000 presentes, no dia do soldado faz uma confraternização para todos os policiais da região e dá um presente pra cada um. Na sua fazenda, mais um exemplo de sua solidariedade: o aposentado funcionário Moreira, de 115 anos, que vive lá e seu Tonho faz questão de deixar uma enfermeira para cuidar dele.
O critério para escolher quem ele ajuda é bem simples: “eu dou a quem me pede, a quem toca meu coração”. E quando perguntado se já pensou alguma vez em ser político a resposta foi categórica: “não gosto nem de política nem de futebol”.
Com tanta riqueza já conquistada ele também já viajou para Mônaco, Estados Unidos, Chile e diz que pretende viajar duas vezes por ano para outros lugares, mas não abre mão de viver em Salinas, segundo ele, o seu lugar: “qualquer lugar no mundo serve para o ser humano ganhar dinheiro, vai depender das habilidades que ele tiver; Salinas é a capital da cachaça, eu mexo com cachaça aqui é o meu lugar”, explica.
Ao fim do dia voltamos para sua casa e depois de uma tarde tão movimentada ele revela, ou quase, seu(s) segredo(s) para o seu sucesso. Garante que são as fantasias, mas também lembra que a frase “veio no mundo para dar certo” serve para ele: “onde eu ponho a mão vira diamante lapidado, qualquer coisa que eu mexer dá certo, isso é fé, determinação ousadia, competência. O desafio, o trem que mais gosto é o desafio”. E como ele consegue administrar tudo que tem mantendo o bom humor? A resposta vem de uma de suas frases prontas espalhadas pela casa: “Quando a gente faz o que gosta e gosta do que faz, a lã não pesa ao carneiro nem a barba pesa ao bode”.
Aposentar? Só daqui a 32 anos, quando estiver com 100 anos, e depois diz que pretende viver mais 130, em sua fazenda. Já pensa também num herdeiro para a fábrica, o único neto que, mesmo sendo uma criança, seu Tonho garante que “tem tendência para assumir a Seleta”. Pouco tempo depois, essa mistura de ganancioso empresário, com a solidariedade de um padre e a fama de um “rei” da cachaça se despede e vai dormir cedo, pois acorda às quatro e meia da manhã todos os dias para trabalhar em seus inúmeros escritórios. Não que isso faça sua barba ficar mais pesada.