Nesta seção, o link para o livro-reportagem que produzi como Trabalho de Conclusão de Curso na UFMG, aprovado com nota máxima, chamado: "Cidade de Terra: Lutas de ocupações urbanas por moradia em Belo Horizonte".
domingo, 15 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Matéria que fiz sobre a Lei Orçamentária Anual, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) enquanto voluntário do Portal MeuDeputado, da associação Democracia Ativa:
A hora de quebrar o cofrinho (ou confira diretamente no Portal MeuDeputado.org)
A hora de quebrar o cofrinho
Depois de arrecadar dinheiro para os cofres públicos o estado deve planejar como e onde gastar suas verbas. Para isso existe a Lei Orçamentária Anual, que é o principal mecanismo de planejamento orçamentário a curto prazo do estado. Entender como tramita essa lei é essencial, afinal de contas o cofre é de todos nós
O orçamento do estado
No dia 18 de dezembro de 2009 foi aprovado na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) um dos Projetos de Lei mais importantes para Minas em 2010. Trata-se da Lei Orçamentária Anual (LOA), que estipula a receita e define as despesas do estado para o próximo ano. Dentro do sistema orçamentário, a LOA expressa a política econômico-financeira e o programa de trabalho governamental que serão executados a curto prazo.
Para 2010 a Receita prevista é de R$ 41,1 bilhão, valor 5,48% maior que a receita de 2009. A maior parte do dinheiro veio da arrecadação tributária, que totalizou cerca de R$ 29,2 bilhões, dos quais 84,42% vieram do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Dos R$ 41,1 bilhão cerca de R$ 8,64 bilhões serão destinados a investimentos. Desse montante a maior parte vai para as empresas controladas pelo estado, que terão um investimento previsto da ordem de R$ 5,25 bilhões, dos quais 93,5% serão destinados à CEMIG e à COPASA. Os R$ 3,39 bilhões restantes vão para os investimentos gerais do estado que incluem medidas como: a ampliação do ensino técnico-profissionalizante, a reforma das escolas rurais, a reforma do Aeroporto Internacional de Confins, a realização do cinturão de segurança pública, dentre outras.
Uma tramitação especial
O governador é quem elabora o Projeto de Lei que, encaminhado à ALMG pela Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), passa por uma tramitação diferente da que ocorre com as propostas de lei ordinárias. "A tramitação é especial, todos os projetos de lei orçamentária tramitam em turno único e têm uma comissão mista, também conhecida como a Grande Comissão, que é a Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária (CFF) ampliada. Nas reuniões participam membros de todas as comissões permanentes", explica a Gerente da Consultoria de Finanças Públicas e Orçamento da ALMG, Suzane Bouchardet. A "Grande Comissão" tem um prazo de 60 dias para emitir um parecer, sendo que nos 20 primeiros dias de tramitação qualquer deputado ou comissão pode enviar emendas ao projeto. Na LOA de 2010 foram aprovadas 549 emendas que, como lembra o deputado Zé Maia (PSDB) são uma forma de tornar o orçamento mais democrático, já que a tarefa de definir o orçamento será feita com base nas diversas sugestões apresentadas pelos deputados. A população também tem sua parcela de participação na elaboração da Lei. Em 2009, por exemplo, de um total de 704 emendas aprovadas, 51 foram elaboradas com base em sugestões da sociedade civil. A população envia suas sugestões para avaliação da Comissão de Participação Popular e, caso aprovada, a proposta pode virar uma emenda que será encaminhada à CFF.
Neste ano foram aprovadas 46 propostas populares. Para Suzane, o fato de ter diminuído o número de propostas que geraram emendas não quer dizer que houve uma redução da participação. "Significa que o trabalho que vem sendo feito ao longo desses anos tem dado certo e nós estamos conseguindo qualificar a população para que ela possa interferir no processo de forma mais informada, o que gera propostas mais consistentes", reitera.
O papel da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na elaboração do orçamento também é muito importante, pois é ela quem verifica se a proposição está de acordo com a legislação vigente. O vice-presidente da CCJ, deputado Chico Uejo (PSB), explica: "O que o parlamento faz é uma avaliação primeiro formal (se a lei está dentro dos critérios legais exigidos) e se a lei está em acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias e com o Plano Plurianual de Ações Governamentais (PPAG)".
Essa preocupação com as determinações legais se reflete na Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária, como explica o deputado Zé Maia, presidente da Comissão : "A principal preocupação é com os limites constitucionais, como por exemplo o nível de gasto com pessoal, que tem uma limitação pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Aquilo que está previsto na Constituição, a gente olha primeiro".
Gastos engessados
Em se tratando de limites constitucionais, os gastos com o pessoal do executivo estão muito próximos do limite estabelecido pela Lei de Responsabilidade fiscal. Segundo a lei, o estado pode gastar até 46,55% da Receita Corrente Líquida (RCL) para o pagamento de pessoal do Executivo. A proposta para 2010 prevê um gasto de 46,54% dessa receita com o Executivo, o que equivale a cerca de R$ 14 bilhões. O número é alto, principalmente se comparado aos gastos com saúde (R$ 5,5 bi) educação (R$ 4,65 bi) e segurança pública (R$ 4,99 bi) estipulados para 2010. Como explica Suzane, essa discrepância se dá graças a um engessamento do orçamento: "O nível de vinculação de receita orçamentária que é muito grande, por exemplo, você pega a despesa com pessoal, com saúde e educação, são despesas que se tem uma margem muito reduzida para se mexer. O orçamento hoje é de R$ 41 bilhões onde é necessário alocar os recursos nos diversos programas do estado. Minas Gerais está investindo hoje 8,26% do orçamento fiscal (os R$ 3,39 bilhões já citados). Em relação ao orçamento dos outros estados, e até da União, é um investimento alto".
Por: Mateus Coutinho.
Nesta seção estão as matérias que produzi para o Programa de Férias Polo Jequitinhonha 2011. Elas são o registro de uma viagem de uma semana pelo Vale Jequitinhonha, e retratam diferentes temas e perspectivas de acordo com cada cidade visitada.
Uma vez referência... (matéria sobre a produção de cachaça em Salinas)
Educação no campo: a luta dos esquecidos (matéria sobre a EFA Bontempo)
A memória do beco (perfil de um morador de Araçuai que sobreviveu à enchente que destruiu a cidade)
Do outro lado do rio (matéria sobre o pólo cultural de Araçuai)
O empresário-padre-rei (perfil de seu Tonho, maior produtor de cachaça de Salinas)
O empresário-padre-rei
Uma tarde com Antônio Rodrigues, o mais famoso e bem-sucedido cidadão de Salinas
Por Mateus Coutinho
“Bater no portão”, “telefone” e “perguntas sem respostas”, são essas as três mensagens que se vê logo ao entrar na casa de Antônio Rodrigues, o maior produtor de cachaça do país, também conhecido como seu Tonho. A estranha lista é das coisas que ele não gosta: Que batam no portão de sua casa; que ele tenha que atender o telefone enquanto está conversando com alguma pessoa e que ele seja surpreendido com perguntas “sem resposta” (em pouco tempo de conversa dá pra perceber que a noção de “sem resposta” é bem relativa). Mas estes são apenas alguns detalhes da vida de um dos mais notáveis cidadãos de Salinas que, tendo administrado mais de 30 empresas diferentes, encontrou na produção de cachaça artesanal os ovos de ouro que lhe tornariam um verdadeiro “rei”.
Ao conhecer mais um pouco sua casa, o que se vê é uma profusão de mensagens de efeito nas paredes, imagens de santos espalhadas pelos cômodos, a coleção de chapéus na parede da sala, apitos em quase cada cômodo para chamar as secretárias e, é claro, a simpática doberman que, apesar do tamanho assustador, é extremamente dócil com as visitas. Ao todo seu Tonho possui duas secretárias particulares sendo que, onde quer que ele esteja, ao menos uma estará por perto. E é em casa que ele dispõe de seus apitos para chamar as duas e a sua cozinheira: um silvo para Rose, dois para Fernanda (secretária que entrou há pouco tempo e ainda está “estagiando”) e três para Aureni, a responsável pela comida e que, diferente das outras duas, fica sempre na casa.
Não faltam elementos curiosos para descrever na casa de Antônio Rodrigues, todavia, na tarefa de acompanhá-lo falta tempo para saber mais sobre o singular ambiente. Como ocupado empresário que é ele está sempre com tarefas de sobra e não se importa de deixar os que não o acompanham para trás. Em poucos minutos então, saímos de sua casa e vamos à loja, que fica na mesma rua, poucos quarteirões acima...
Hoje com 62 anos e sete filhos criados (quatro com a ex-mulher e três fora do casamento) o maior produtor do país sempre viveu em Salinas e começou a trabalhar com 7 anos. Filho de pais “de classe baixa” como ele descreve, viu que todos seus amigos recebiam mesada menos ele e buscou sua “independência financeira”. Trabalhou então num estacionamento para animais que traziam carga da zona rural para a zona urbana nas sextas e sábados...
Chegando à loja da Seleta, uma das maiores da cidade, mais uma profusão de cachaças, quadros com fotos de famosos, parentes, charges de seu Antônio, certificados de qualidade, tudo isso em meio a inúmeras salas e funcionários trabalhando (ao todo são 150 funcionários em sua empresa). A loja existiu sempre no mesmo local e hoje possui, além das mercadorias à venda, 850 mil litros de cachaça em tóneis que podem ser visitados nos fundos. Mesmo nunca tendo saído de lá, Antônio garante que em dois anos vai mudar a loja de lugar, sem falar pra onde. Em meio à conversa ele conversa com os funcionários, resolve problemas e, numa ligeira parada no escritório, recebe o relatório das vendas do último mês e mostra sua coleção de bonecos e enfeites espalhada pela sala: “Tudo eu tenho mais do que qualquer pessoa, inclusive sorte”. As vendas 50% acima do previsto não deixam mentir. Mas logo temos que ir embora da loja, seu Tonho precisa ir à engarrafadora resolver alguns problemas...
Desde novo tinha jeito para negócios (“tenho visão, percepção e ação de imediato”, afirma), mas apenas na década de 70, quando namorava sua ex-esposa, que “descobriu” a cachaça. Estava na casa do pai dela, que era dono da marca Indaiazinha e, impressionado com o tanto que ele vendia, resolveu seguir a dica do sogro: “Ele ficou uma semana só contando dinheiro e me falou que um bom negócio pra ganhar dinheiro é o envelhecimento de cachaça”. Dois meses depois, seu Tonho havia mandado fazer dois tonéis e começado sua produção- “rachei de ganhar dinheiro e um ano depois já tinha quatro tonéis e a partir daí fui crescendo”...
Chegando à engarrafadora, uma incontável quantidade de tonéis: ao todo são produzidos 4,5 milhões de litros de cachaça anualmente, quase o triplo de todos os outros produtores de Salinas juntos. Mais uma passada no escritório, mas dessa vez tem que visitar os funcionários na área de engarrafamento para resolver um problema. Por um tempo seu lado administrador aflora e passa lições sobre a importância de se ter funcionários inteligentes, ambiciosos, que saibam resolver os problemas: “Vou passar a fazer uma palestra por semana, as pessoas têm que entender, vocês têm a solução e não tentaram”. Passado o sermão o simpático Antônio Rodrigues logo faz piada sobre a cara de medo dos funcionários e pouco tempo depois já caímos na estrada, dessa vez para conhecer os outros terrenos de seu Antônio.
No caminho, ao som de música sertaneja no carro, ele conta sobre suas ambições, projetos e até sobre religião. Estudou até os 33 anos, parou e depois de um tempo voltou para concluir o segundo grau. A partir daí se formou em Marketing, depois fez um curso sobre Gestão de Pessoas e ainda se formou em Administração. Todos os cursos ele fez em Salinas mesmo e diz que ainda pretende fazer Direito. Hoje ele ganha R$ 15 mil por uma hora de palestra, que ele costuma dar todos os meses (no máximo duas por mês) pelo SEBRAE, mas confessa que não “gosta” desse dinheiro e sempre doa tudo: “não misturo com meu dinheiro não, gosto de ganhar dinheiro é colocando os outros pra trabalhar pra mim ou administrando”, explica.
Essa é só uma das opções que ele tem pra fazer com tanto dinheiro: construir e doar 500 casas populares em 2015; construir um hospital para a filha trabalhar; comprar 50 consultórios odontológicos; comprar um jatinho para passear e um helicóptero em que caibam 50 pessoas. “Meu filho disse que num tem helicóptero para 50 pessoas, mas quem tem dinheiro compra dois e manda juntar”, brinca.
E a lista não acaba por aí: ao passar por suas terras, na saída da cidade, ele conta mais de seus planos: construir 3 condomínios fechados de 55 lotes cada um, construir 1500 lotes de 600 hectares para plantação de cana, construir 6 represas para irrigar esses canaviais, fazer uma pousada na sede de sua fazenda e, é claro, construir mais uma fábrica de cachaça. Ele nem teve trabalho para mostrar onde pretende fazer isso tudo: “Tá vendo aquele espaço ali, dali a uns 20 km pra frente é tudo meu, de um lado e do outro da estrada”, apontava.
Mas o hoje milionário empresário nem sempre foi assim. Quando adolescente queria ir para o seminário e virar padre, ideia que sua mãe logo proibiu. Ainda assim se tornou o mais bem-sucedido dos 6 irmãos e, à exceção da irmã que já trabalhou para ele e agora está aposentada, nenhum dos outros se aventurou na produção de cachaça. “Sou o dono da cocada preta, só quem destacou da família foi eu”, conta.
Atualmente se diz espírita e católico não-praticante, e sua solidariedade parece trazer de volta um pouco do jovem cristão: doa “feira” todo dia para alguém que precise, no Natal doou 800 cestas básicas, no dia das crianças 8000 presentes, no dia do soldado faz uma confraternização para todos os policiais da região e dá um presente pra cada um. Na sua fazenda, mais um exemplo de sua solidariedade: o aposentado funcionário Moreira, de 115 anos, que vive lá e seu Tonho faz questão de deixar uma enfermeira para cuidar dele.
O critério para escolher quem ele ajuda é bem simples: “eu dou a quem me pede, a quem toca meu coração”. E quando perguntado se já pensou alguma vez em ser político a resposta foi categórica: “não gosto nem de política nem de futebol”.
Com tanta riqueza já conquistada ele também já viajou para Mônaco, Estados Unidos, Chile e diz que pretende viajar duas vezes por ano para outros lugares, mas não abre mão de viver em Salinas, segundo ele, o seu lugar: “qualquer lugar no mundo serve para o ser humano ganhar dinheiro, vai depender das habilidades que ele tiver; Salinas é a capital da cachaça, eu mexo com cachaça aqui é o meu lugar”, explica.
Ao fim do dia voltamos para sua casa e depois de uma tarde tão movimentada ele revela, ou quase, seu(s) segredo(s) para o seu sucesso. Garante que são as fantasias, mas também lembra que a frase “veio no mundo para dar certo” serve para ele: “onde eu ponho a mão vira diamante lapidado, qualquer coisa que eu mexer dá certo, isso é fé, determinação ousadia, competência. O desafio, o trem que mais gosto é o desafio”. E como ele consegue administrar tudo que tem mantendo o bom humor? A resposta vem de uma de suas frases prontas espalhadas pela casa: “Quando a gente faz o que gosta e gosta do que faz, a lã não pesa ao carneiro nem a barba pesa ao bode”.
Aposentar? Só daqui a 32 anos, quando estiver com 100 anos, e depois diz que pretende viver mais 130, em sua fazenda. Já pensa também num herdeiro para a fábrica, o único neto que, mesmo sendo uma criança, seu Tonho garante que “tem tendência para assumir a Seleta”. Pouco tempo depois, essa mistura de ganancioso empresário, com a solidariedade de um padre e a fama de um “rei” da cachaça se despede e vai dormir cedo, pois acorda às quatro e meia da manhã todos os dias para trabalhar em seus inúmeros escritórios. Não que isso faça sua barba ficar mais pesada.
Do outro lado do rio
Com lembranças da enchente que a devastou há mais de 30 anos, Araçuaí vem se mostrando verdadeiro pólo cultural
Por Mateus Coutinho
Casas abandonadas, pedaços de construções que outrora foram grandes lojas e agitados prédios, os lotes que, esquecidos no tempo, lançam nas ruas a vegetação e os entulhos que apenas reforçam o desalento do cenário. Em alguns pontos o mato parece ter tomado a rua que, esquecida pelos carros que mal passam por ali, resiste ao calor de 35 graus do Vale do Jequitinhonha. Diante disso tudo um silêncio quase sepulcral. Não fosse o barulho das marcenarias e oficinas de móveis que se aproveitaram dos espaços abandonados a sensação seria de estar numa verdadeira cidade-fantasma.
O cenário quase “pós-apocalíptico” é na verdade a cidade de Araçuaí, localizada no Médio Jequitinhonha. Com seus pouco mais de 36.000 habitantes o município, hoje reconhecidamente um dos grandes pólos de cultura do Vale, guarda em sua parte histórica as memórias de uma enchente da década de 70 que quase levou a cidade embora. Memória, abandono, pobreza e até a tristeza de ver a arquitetura tradicional da cidade ser consumida pelo tempo, é esse o panorama de Araçuaí que busca em suas ricas manifestações culturais uma prova de que não está no esquecimento.
Arraial das Araras
“Rio das araras grandes”, é esse o significado indígena de Araçuaí que, desde suas primeiras ocupações em 1817 quando ainda era um arraial de canoeiros, sempre foi marcada pela sua relação com os cursos d`agua na região. No século XIX a intensa navegação dos canoeiros que realizavam o comércio Bahia-Minas por meio do Rio Araçuaí e do Jequitinhonha fez com que a região fosse sendo ocupada.
Durante o século XIX o ainda arraial, na época chamado de Calhau graças às pedras arredondadas encontradas no Ribeirão, foi crescendo e se tornando um importante pólo comercial para os canoeiros. Foi em 1871 que o local finalmente passou a ser considerado cidade e levou o nome de Araçuaí, e em 1891 já era considerada a capital do nordeste de Minas, sendo a quarta cidade mineira em número de comerciantes. Mas, como aconteceu em todo o Vale do Jequitinhonha, as atividades comerciais ao longo do rio foram decaindo e, além disso, a cidade teve que enfrentar um dos grandes problemas de se viver próximo aos rios: as enchentes.
O rio nem tão amigo
Segundo registros históricos a cidade sempre teve enchentes anuais e a população já era acostumada com isso não se importando com os cerca de 30 a 50 centímetros que entravam nas lojas. Mas foi em 1919 que a população, pega de surpresa, começou a sentir na pele os perigos das enchentes, naquele ano muitas casas foram derrubadas com a inundação e a população saiu correndo para a parte mais alta da cidade. Nove anos depois as pessoas sentiram novamente o perigo da enchente que destruiu a cidade quase toda. Em 1942 mais uma inundação que levou casas inteiras embora, mas nenhuma delas se comparou a de 1979, cuja devastação deixou até hoje marcas na cidade.
Depois de 40 dias de chuvas incessantes a cidade é tomada pelas águas que encobrem várias casas e deixam isoladas milhares de pessoas. As chuvas foram tão intensas que afetaram 37 cidades banhadas pelos rios Jequitinhonha e Araçuaí, no que ficou conhecido como a pior enchente da história do estado, cujo saldo foram 246 mortes. O produtor cultural e antigo morador da cidade, José Pereira, tinha 11 anos na época, mas lembra da marca que a enchente deixou em toda a população: “me lembro do sofrimento do povo com a enchente, com o que ela trouxe pra vida de cada um [...] O que foi mais terrível é que víamos que as pessoas que tinham dinheiro ou propriedades acabavam indo para a parte de cima da cidade, enquanto que as de renda inferior acabaram tendo que ir morar debaixo de lona ou ir para abrigos”.
A família de Zé Pereira ficou quase um mês morando em um abrigo, e a convivência com as diversas famílias ficou em sua memória: “Me lembro de sair para pegar sopa com uma panela e voltar com essa panela para todo mundo comer. Essa questão de acabar criando emocionalmente um convívio com os outros foi uma marca deixada pela enchente”, recorda. Mesmo quando sua família conseguiu uma casa para morar de aluguel eles tiveram que viver de doações, pois haviam perdido tudo na enchente.
Cicatrizes que perduram
Passados 32 anos da enchente a parte mais baixa da cidade, o centro histórico, continua devastada e, como explica o secretário de cultura de Araçuaí, Jackson Espírito Santo, a prefeitura não tem recursos para restaurar os 127 edifícios históricos que foram tombados: “O que estamos mais precisando é de verbas para restaurar porque o repasse que temos do ICMS é muito pouco”. Ele lembra ainda que a principal forma da prefeitura atuar em relação à restauração é por meio de elaboração de projetos para serem aprovados em editais do governo federal, o que é muito difícil: “É preciso muita sorte para conseguir aprovar um projeto de restauração, são muitos municípios que participam, é muita concorrência”, explica.
Se o município não tem dinheiro e o governo federal não consegue atender a todas as demandas, o governo estadual também não tem condições de bancar a restauração, ainda que ajude por meio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais- IEPHA MG. O Instituto tem diversas ações preservação e recuperação do patrimônio histórico e, no caso de Araçuaí, mesmo sem recursos para restaurar os prédios eles fornecem apoio técnico e institucional, enviando arquitetos, engenheiros e outros especialistas para contribuir no tombamento.
A população, por sua vez, mesmo tendo marcada em sua memória a tragédia, parece ter se acomodado a situação: “na verdade não houve uma campanha por parte da prefeitura [na época da enchente] de reconstruir essas casas. E a população também não reclamou muito por causa disso, com o tempo foram entendendo que o que aconteceu em Araçuaí foi uma situação que nenhum de nós daria conta de resolver”, explica Zé Pereira.
Jackson lembra ainda que existe um grande interesse financeiro de alguns dos proprietários dos prédios históricos, que querem vender seus lotes ao invés de permitir o tombamento, o que acaba atrapalhando as tentativas de preservação: “São poucas pessoas realmente interessadas na questão do tombamento, tem gente aqui que se falar que vai tombar a casa dela no outro dia o edifício está no chão”, lamenta.
Hoje dividida em “parte alta” e “parte baixa” a cidade vai passando os seus dias, com a maior parte das atividades comerciais na parte de cima, que também vem sendo cada vez mais ocupada com lotes residenciais. A histórica parte mais baixa, por sua vez, mantêm alguns poucos comerciantes que ainda “resistem” e vai sendo tomada pelas drogas, que lentamente vão ocupando os prédios abandonados, lugares que tem atraído muitos consumidores durante a noite.
As flagelas do esquecimento e o medo de novas enchentes são cicatrizes que permanecem na cidade. Mesmo com a Barragem de Irapé, construída em Berilo há alguns quilômetros rio acima e que a população tem considerado como “garantia” contra enchentes, há aqueles que sabem que a situação não é tão simples assim e têm medo de voltar para a parte baixa.
O despertar na cultura
Mas além de suas cicatrizes a cidade vive uma florescência cultural que a torna um verdadeiro pólo, no Vale e no Brasil. Corais, grupos de teatro, a tradicional Folia de Reis, o artesanato e até um cinema (algo não muito comum nas cidades do Vale) instalado na parte histórica pelo governo federal: o “Cinema Meninos de Araçuaí”. Tudo isso (e mais um pouco) faz parte da rica cultura da cidade que já é reconhecida nacionalmente.
Um dos mais tradicionais da cidade, o coral “Trovadores do Vale”, fundado pelo frei holandês Francisco Van der Poel, ou simplesmente Frei Chico, já tem mais de quarenta anos com apresentações em várias cidades de Minas e dois cd´s gravados. Além dos típicos corais (ao todo são oito) a cidade também conta com três grupos teatrais de sucesso. Zé Pereira, hoje produtor cultural, foi e continua sendo um dos grandes protagonistas da história do sucesso do teatro araçuaiense. Com 16 anos começou a participar do grupo Vozes, onde atuou durante muito tempo e inclusive ganhou prêmios (já mais velho), como o do Festival Mineiro de Teatro. E ele garante que o segredo do sucesso vem do Vale: “nós usamos a linguagem que queríamos usar, a linguagem do Vale, onde chegarmos com ela vamos arrebentar”.
Zé Pereira também construiu o Centro Cultural Luz da Lua, em um prédio onde funcionava o antigo cinema da cidade. Desde oficinas de teatro a exibições semanais de cinema o centro cultural é um dos maiores promotores da cultura regional. Seu principal projeto é o festival nacional de teatro “k-iau em cena” que ocorre todo ano e traz inúmeras atrações, inclusive internacionais, à cidade.
Tamanha riqueza cultural atrai até quem vem de longe: “Vimos como o vale possui realmente uma riqueza cultural, como ele tem que ser descoberto ainda”, conta a produtora cultural Márcia Sielski sobre sua primeira viagem a Araçuaí. Márcia não se importa de percorrer os 1280 Km de Ponta Grossa, no Paraná, para vir prestigiar o trabalho do Luz da Lua. Ela faz parte de uma produtora cultural paranaense chamada Mosaico Ação Cultural e conheceu o trabalho de Zé Pereira em 1994 durante o Festival Nacional de Teatro Amador, em Ponta Grossa. Desde então ela vem trabalhando em parceria com o Luz da Lua para promover, por meio de editais do Governo Federal, a cultura do Vale: “em todos os projetos do K-iau estamos presentes porque é uma oportunidade de todos os artistas que vem aqui de ver este encantamento. Ninguém imagina que uma cidade com 36 mil habitantes possa ter além de uma riqueza cultural tão grande uma produção como tem a produtora Luz da Lua” ressalta.
E assim, da cultura que exala de seus dedicados artistas e artesãos às ruínas que fazem lembrar porque o Jequitinhonha é, política e socialmente, o “vale do esquecimento” Araçuaí vai (re)escrevendo sua história. Desafio que pode não ser fácil, mas que já vem rompendo barreiras, pelo menos as geográficas.
A memória do Beco
A história do comerciante de Araçuaí que resistiu a enchente e até hoje continua no mesmo lugar, outrora chamado de “Beco da Sola”
Por Mateus Coutinho
Numa pequena rua abandonada, entre antigas construções que ainda resistem, onde o mato dos lotes vazios divide espaço com os escombros e logo ao lado se escuta barulho de alguns amigos jogando baralho no que algum dia foi o bar da esquina. É caminhando por esse cenário, outrora uma das ruas mais movimentadas da cidade, que se pode encontrar, sentado num banco na entrada de sua loja com o portão entreaberto quase na altura da cabeça, Écio José Esteves. Ele é um dos poucos vendedores da parte baixa de Araçuaí que resistiu à enchente e até hoje vende seus produtos de couro em sua pequena loja na rua Salinas.
Com 79 anos, um dos mais antigos artesãos araçuaienses- ele faz parte da Associação dos Artesãos da cidade- que desde 1946 vende seus produtos de couro na antiga zona boemia da cidade, recebe os outros sem relutância e gosta de uma prosa. Dentro de sua loja, um cubículo com marcas da enchente até hoje nas paredes, uma profusão de cintos, celas, coldres e botas. Nem tudo é produzido por ele, seu Écio admite que compra algumas coisas para vender e que, ultimamente, o que tem lhe dado mais dinheiro mesmo é o conserto de peças.
A vida inteira trabalhou com couro: “a família toda mexia com couro, por isso aprendi cedo”, conta lembrando que seu pai era sapateiro. Hoje é aposentado e mesmo sem precisar trabalhar não fica sem ir a sua loja: “Muita gente fala que não preciso trabalhar, mas eu falo que não, que todo mundo precisa [...] isso faz parte da vida da gente, gosto de trabalhar, de ocupar a cabeça”, explica. Mas seu Écio nem sempre teve a chance de optar por trabalhar, ele lembra que teve uma vida muito difícil cuidando de 13 filhos, que garante nunca terem passado fome mesmo que em sua casa ele “não comia o que planejava comer”.
Sua loja foi sempre no mesmo lugar desde 1946, numa esquina da famosa rua Salinas. Naquela época a região era conhecida como a “zona boemia” da cidade onde os homens aproveitavam os serviços das “meretrizes”: “Vixe o pessoal ficava bobo de ver o tanto de mulher que tinha”, lembra seu Écio. Não apenas os solteiros como também os casados iam para a “boemia” que na época era aceita pela sociedade como algo normal. Mas não só de farra vivia a rua Salinas, durante o dia a região era conhecida como “Beco da Sola” devido as inúmeras lojas de artefatos de couro. Celarias, sapatarias, uma infinidade de lojas e sapateiros que, como seu Écio, sabiam muito bem como trabalhar com o produto. “Aqui o movimento era uma coisa fora do comum”, relembra o antigo comerciante.
E não foi apenas o movimento das sapatarias e celarias que atraiu seu Écio. Nascido em Araçuaí em 1931 ele deixou a cidade por 3 anos, entre 1943 e 1945, e foi para Diamantina onde estudou no seminário para se tornar padre. Mas não resistiu aos encantos de sua cidade e em 46 desistiu de ser padre e veio morar em Araçuaí novamente, o motivo: “encontrei uma menina morena aqui e desisti de ser padre”. A menina se chamava Neusa Pereira Esteves, que viria a se tornar sua esposa em 1954 e a mãe de seus treze filhos com quem ele mora até hoje.
Se a agitada (e romântica) vida no Beco da Sola foram marcantes para seu Écio, a destruição causada pela enchente de 79 traz a memória do abandono que a região vem sofrendo desde então. Ele lembra que como o rio ia subindo devagar dava tempo para carregar todos os pertences da loja, atividade que fez sozinho, e levá-los para sua casa, que mesmo ficando próxima ao Ribeirão Calhau, foi menos atingida. Lembra ainda que muitos dos comerciantes se mudaram do Beco depois do ocorrido, sendo que os que tinham mais dinheiro acabaram indo pra parte alta, enquanto os mais humildes como ele ficaram a margem do abandono: “Eles [prefeitura] deram casa para quem era da parte de cima e para a parte de baixo num deram nada, o prefeito num fez nada aqui e queria que o pessoal mudasse. Como ia mudar se já tinha perdido tudo?”. Não só não fizeram nada como também não prometeram nada, como recorda seu Écio.
Assim como muitos que foram embora do Beco da Sola ele também tem vontade de sair de lá, mas “não tenho dinheiro pra ficar lá [parte alta], o aluguel lá e muito caro, a gente tem que permanecer por aqui mesmo”. Ainda que vendesse sua loja, segundo ele no preço irrisório de R$ 5 mil, não conseguiria comprar algum terreno na parte mais alta, que custa entre R$ 30 E R$ 40 mil.
E hoje, entre os inúmeros acessórios de sua loja, as fotos dos filhos pregadas na parede (dos treze, três faleceram) e o calor incessante do local é que se pode ver, num canto quase escondido de uma estante, a bola de futebol, símbolo de sua paixão. Desde novo ele jogava e não era apenas uma pelada com os amigos: “joguei no time aqui da cidade, no América de Teófilo Otoni, joguei em Diamantina também”. No alto da parede uma foto de sua equipe de Araçuaí, lembranças da época em que era um “fominha”: “enquanto alguém ia buscar a bola eu já estava jogando com outra”, conta nostálgico.
A maioria de seus filhos não gosta do futebol e nenhum deles tampouco trabalha com couro. Atualmente, quando tem a oportunidade, seu Écio aproveita a visita de seu neto, que mora em belo horizonte, para matar a saudade do esporte. “A perna num tá firmando mais né”, afirma com uma certa tristeza, colocando as mãos nos joelhos com 79 anos de futebol, mas ao mesmo tempo garante que consegue jogar a bola com a cabeça 10 vezes seguidas com outra pessoa. Seu neto que estava na loja esperando para jogar não deixa mentir.
Com os 10 filhos criados, todos morando fora da cidade, lembranças de quando sua rua era das mais agitadas da cidade e a paixão pela bola seu Écio vai passando seus dias. E a fé de quem já estudou no seminário também está presente: “quem me auxiliou foi aquele lá de cima”, e agradece a deus por hoje ter conseguido se aposentar e poder visitar os filhos em Belo Horizonte. Ao mesmo tempo também lamenta o abandono de Araçuai: “Ah cê ta doido, aqui parece que acabou, antes tinha Rede Mineira (antiga empresa de viação), vários times de futebol, oito clubes [de lazer], tinha muita coisa”.
Ainda assim não deixa sua cidade e tampouco o vale, a razão ele explica: “amo o vale tenho muitos anos de amizades aqui, meu neto fala que conheço tanta gente que poderia até virar vereador”. Seus amigos, que ele garante serem o que ele mais gosta no Vale, já até compraram uma casa para ele mudar para Belo Horizonte e ele não foi. Da mesma forma a ideia de ser vereador nunca lhe atraiu : “deus me livre num quero nem saber seu avô passa a ser desonesto”, fala para o neto.
E ali no meio de sua apertada loja, sem lugar para se sentar, com seu neto esperando ao lado, seu Écio sorria ao final da conversa. Já beirando os 80 anos de uma vida inteira no Vale ele gosta de partilhar suas histórias e naquele pequeno estabelecimento, ele continua trabalhando todos os dias, como um verdadeiro símbolo da memória de Araçuaí. Saudades do tempo que sua rua tinha mais vida, que suas pernas lhe davam o prazer do esporte e sua casa era marcada pela presença dos filhos. Saudades, mas nem por isso falta de fé e gosto pela vida, afinal de contas a bola no canto da estante o espera e “lá em cima” Ele está de olho: “Mas é isso deus olha pra gente”, termina sua fala, com o argumento que nem mesmo o rio consegue refutar, e olha que ele já tentou.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Nesta seção estão os links das matérias que produzi para a revista do Projeto Manuelzão da UFMG, no período de pouco mais de um ano em que atuei lá:
Entre o protagonista e o figurante
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