A memória do Beco
A história do comerciante de Araçuaí que resistiu a enchente e até hoje continua no mesmo lugar, outrora chamado de “Beco da Sola”
Por Mateus Coutinho
Numa pequena rua abandonada, entre antigas construções que ainda resistem, onde o mato dos lotes vazios divide espaço com os escombros e logo ao lado se escuta barulho de alguns amigos jogando baralho no que algum dia foi o bar da esquina. É caminhando por esse cenário, outrora uma das ruas mais movimentadas da cidade, que se pode encontrar, sentado num banco na entrada de sua loja com o portão entreaberto quase na altura da cabeça, Écio José Esteves. Ele é um dos poucos vendedores da parte baixa de Araçuaí que resistiu à enchente e até hoje vende seus produtos de couro em sua pequena loja na rua Salinas.
Com 79 anos, um dos mais antigos artesãos araçuaienses- ele faz parte da Associação dos Artesãos da cidade- que desde 1946 vende seus produtos de couro na antiga zona boemia da cidade, recebe os outros sem relutância e gosta de uma prosa. Dentro de sua loja, um cubículo com marcas da enchente até hoje nas paredes, uma profusão de cintos, celas, coldres e botas. Nem tudo é produzido por ele, seu Écio admite que compra algumas coisas para vender e que, ultimamente, o que tem lhe dado mais dinheiro mesmo é o conserto de peças.
A vida inteira trabalhou com couro: “a família toda mexia com couro, por isso aprendi cedo”, conta lembrando que seu pai era sapateiro. Hoje é aposentado e mesmo sem precisar trabalhar não fica sem ir a sua loja: “Muita gente fala que não preciso trabalhar, mas eu falo que não, que todo mundo precisa [...] isso faz parte da vida da gente, gosto de trabalhar, de ocupar a cabeça”, explica. Mas seu Écio nem sempre teve a chance de optar por trabalhar, ele lembra que teve uma vida muito difícil cuidando de 13 filhos, que garante nunca terem passado fome mesmo que em sua casa ele “não comia o que planejava comer”.
Sua loja foi sempre no mesmo lugar desde 1946, numa esquina da famosa rua Salinas. Naquela época a região era conhecida como a “zona boemia” da cidade onde os homens aproveitavam os serviços das “meretrizes”: “Vixe o pessoal ficava bobo de ver o tanto de mulher que tinha”, lembra seu Écio. Não apenas os solteiros como também os casados iam para a “boemia” que na época era aceita pela sociedade como algo normal. Mas não só de farra vivia a rua Salinas, durante o dia a região era conhecida como “Beco da Sola” devido as inúmeras lojas de artefatos de couro. Celarias, sapatarias, uma infinidade de lojas e sapateiros que, como seu Écio, sabiam muito bem como trabalhar com o produto. “Aqui o movimento era uma coisa fora do comum”, relembra o antigo comerciante.
E não foi apenas o movimento das sapatarias e celarias que atraiu seu Écio. Nascido em Araçuaí em 1931 ele deixou a cidade por 3 anos, entre 1943 e 1945, e foi para Diamantina onde estudou no seminário para se tornar padre. Mas não resistiu aos encantos de sua cidade e em 46 desistiu de ser padre e veio morar em Araçuaí novamente, o motivo: “encontrei uma menina morena aqui e desisti de ser padre”. A menina se chamava Neusa Pereira Esteves, que viria a se tornar sua esposa em 1954 e a mãe de seus treze filhos com quem ele mora até hoje.
Se a agitada (e romântica) vida no Beco da Sola foram marcantes para seu Écio, a destruição causada pela enchente de 79 traz a memória do abandono que a região vem sofrendo desde então. Ele lembra que como o rio ia subindo devagar dava tempo para carregar todos os pertences da loja, atividade que fez sozinho, e levá-los para sua casa, que mesmo ficando próxima ao Ribeirão Calhau, foi menos atingida. Lembra ainda que muitos dos comerciantes se mudaram do Beco depois do ocorrido, sendo que os que tinham mais dinheiro acabaram indo pra parte alta, enquanto os mais humildes como ele ficaram a margem do abandono: “Eles [prefeitura] deram casa para quem era da parte de cima e para a parte de baixo num deram nada, o prefeito num fez nada aqui e queria que o pessoal mudasse. Como ia mudar se já tinha perdido tudo?”. Não só não fizeram nada como também não prometeram nada, como recorda seu Écio.
Assim como muitos que foram embora do Beco da Sola ele também tem vontade de sair de lá, mas “não tenho dinheiro pra ficar lá [parte alta], o aluguel lá e muito caro, a gente tem que permanecer por aqui mesmo”. Ainda que vendesse sua loja, segundo ele no preço irrisório de R$ 5 mil, não conseguiria comprar algum terreno na parte mais alta, que custa entre R$ 30 E R$ 40 mil.
E hoje, entre os inúmeros acessórios de sua loja, as fotos dos filhos pregadas na parede (dos treze, três faleceram) e o calor incessante do local é que se pode ver, num canto quase escondido de uma estante, a bola de futebol, símbolo de sua paixão. Desde novo ele jogava e não era apenas uma pelada com os amigos: “joguei no time aqui da cidade, no América de Teófilo Otoni, joguei em Diamantina também”. No alto da parede uma foto de sua equipe de Araçuaí, lembranças da época em que era um “fominha”: “enquanto alguém ia buscar a bola eu já estava jogando com outra”, conta nostálgico.
A maioria de seus filhos não gosta do futebol e nenhum deles tampouco trabalha com couro. Atualmente, quando tem a oportunidade, seu Écio aproveita a visita de seu neto, que mora em belo horizonte, para matar a saudade do esporte. “A perna num tá firmando mais né”, afirma com uma certa tristeza, colocando as mãos nos joelhos com 79 anos de futebol, mas ao mesmo tempo garante que consegue jogar a bola com a cabeça 10 vezes seguidas com outra pessoa. Seu neto que estava na loja esperando para jogar não deixa mentir.
Com os 10 filhos criados, todos morando fora da cidade, lembranças de quando sua rua era das mais agitadas da cidade e a paixão pela bola seu Écio vai passando seus dias. E a fé de quem já estudou no seminário também está presente: “quem me auxiliou foi aquele lá de cima”, e agradece a deus por hoje ter conseguido se aposentar e poder visitar os filhos em Belo Horizonte. Ao mesmo tempo também lamenta o abandono de Araçuai: “Ah cê ta doido, aqui parece que acabou, antes tinha Rede Mineira (antiga empresa de viação), vários times de futebol, oito clubes [de lazer], tinha muita coisa”.
Ainda assim não deixa sua cidade e tampouco o vale, a razão ele explica: “amo o vale tenho muitos anos de amizades aqui, meu neto fala que conheço tanta gente que poderia até virar vereador”. Seus amigos, que ele garante serem o que ele mais gosta no Vale, já até compraram uma casa para ele mudar para Belo Horizonte e ele não foi. Da mesma forma a ideia de ser vereador nunca lhe atraiu : “deus me livre num quero nem saber seu avô passa a ser desonesto”, fala para o neto.
E ali no meio de sua apertada loja, sem lugar para se sentar, com seu neto esperando ao lado, seu Écio sorria ao final da conversa. Já beirando os 80 anos de uma vida inteira no Vale ele gosta de partilhar suas histórias e naquele pequeno estabelecimento, ele continua trabalhando todos os dias, como um verdadeiro símbolo da memória de Araçuaí. Saudades do tempo que sua rua tinha mais vida, que suas pernas lhe davam o prazer do esporte e sua casa era marcada pela presença dos filhos. Saudades, mas nem por isso falta de fé e gosto pela vida, afinal de contas a bola no canto da estante o espera e “lá em cima” Ele está de olho: “Mas é isso deus olha pra gente”, termina sua fala, com o argumento que nem mesmo o rio consegue refutar, e olha que ele já tentou.
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