Do outro lado do rio
Com lembranças da enchente que a devastou há mais de 30 anos, Araçuaí vem se mostrando verdadeiro pólo cultural
Por Mateus Coutinho
Casas abandonadas, pedaços de construções que outrora foram grandes lojas e agitados prédios, os lotes que, esquecidos no tempo, lançam nas ruas a vegetação e os entulhos que apenas reforçam o desalento do cenário. Em alguns pontos o mato parece ter tomado a rua que, esquecida pelos carros que mal passam por ali, resiste ao calor de 35 graus do Vale do Jequitinhonha. Diante disso tudo um silêncio quase sepulcral. Não fosse o barulho das marcenarias e oficinas de móveis que se aproveitaram dos espaços abandonados a sensação seria de estar numa verdadeira cidade-fantasma.
O cenário quase “pós-apocalíptico” é na verdade a cidade de Araçuaí, localizada no Médio Jequitinhonha. Com seus pouco mais de 36.000 habitantes o município, hoje reconhecidamente um dos grandes pólos de cultura do Vale, guarda em sua parte histórica as memórias de uma enchente da década de 70 que quase levou a cidade embora. Memória, abandono, pobreza e até a tristeza de ver a arquitetura tradicional da cidade ser consumida pelo tempo, é esse o panorama de Araçuaí que busca em suas ricas manifestações culturais uma prova de que não está no esquecimento.
Arraial das Araras
“Rio das araras grandes”, é esse o significado indígena de Araçuaí que, desde suas primeiras ocupações em 1817 quando ainda era um arraial de canoeiros, sempre foi marcada pela sua relação com os cursos d`agua na região. No século XIX a intensa navegação dos canoeiros que realizavam o comércio Bahia-Minas por meio do Rio Araçuaí e do Jequitinhonha fez com que a região fosse sendo ocupada.
Durante o século XIX o ainda arraial, na época chamado de Calhau graças às pedras arredondadas encontradas no Ribeirão, foi crescendo e se tornando um importante pólo comercial para os canoeiros. Foi em 1871 que o local finalmente passou a ser considerado cidade e levou o nome de Araçuaí, e em 1891 já era considerada a capital do nordeste de Minas, sendo a quarta cidade mineira em número de comerciantes. Mas, como aconteceu em todo o Vale do Jequitinhonha, as atividades comerciais ao longo do rio foram decaindo e, além disso, a cidade teve que enfrentar um dos grandes problemas de se viver próximo aos rios: as enchentes.
O rio nem tão amigo
Segundo registros históricos a cidade sempre teve enchentes anuais e a população já era acostumada com isso não se importando com os cerca de 30 a 50 centímetros que entravam nas lojas. Mas foi em 1919 que a população, pega de surpresa, começou a sentir na pele os perigos das enchentes, naquele ano muitas casas foram derrubadas com a inundação e a população saiu correndo para a parte mais alta da cidade. Nove anos depois as pessoas sentiram novamente o perigo da enchente que destruiu a cidade quase toda. Em 1942 mais uma inundação que levou casas inteiras embora, mas nenhuma delas se comparou a de 1979, cuja devastação deixou até hoje marcas na cidade.
Depois de 40 dias de chuvas incessantes a cidade é tomada pelas águas que encobrem várias casas e deixam isoladas milhares de pessoas. As chuvas foram tão intensas que afetaram 37 cidades banhadas pelos rios Jequitinhonha e Araçuaí, no que ficou conhecido como a pior enchente da história do estado, cujo saldo foram 246 mortes. O produtor cultural e antigo morador da cidade, José Pereira, tinha 11 anos na época, mas lembra da marca que a enchente deixou em toda a população: “me lembro do sofrimento do povo com a enchente, com o que ela trouxe pra vida de cada um [...] O que foi mais terrível é que víamos que as pessoas que tinham dinheiro ou propriedades acabavam indo para a parte de cima da cidade, enquanto que as de renda inferior acabaram tendo que ir morar debaixo de lona ou ir para abrigos”.
A família de Zé Pereira ficou quase um mês morando em um abrigo, e a convivência com as diversas famílias ficou em sua memória: “Me lembro de sair para pegar sopa com uma panela e voltar com essa panela para todo mundo comer. Essa questão de acabar criando emocionalmente um convívio com os outros foi uma marca deixada pela enchente”, recorda. Mesmo quando sua família conseguiu uma casa para morar de aluguel eles tiveram que viver de doações, pois haviam perdido tudo na enchente.
Cicatrizes que perduram
Passados 32 anos da enchente a parte mais baixa da cidade, o centro histórico, continua devastada e, como explica o secretário de cultura de Araçuaí, Jackson Espírito Santo, a prefeitura não tem recursos para restaurar os 127 edifícios históricos que foram tombados: “O que estamos mais precisando é de verbas para restaurar porque o repasse que temos do ICMS é muito pouco”. Ele lembra ainda que a principal forma da prefeitura atuar em relação à restauração é por meio de elaboração de projetos para serem aprovados em editais do governo federal, o que é muito difícil: “É preciso muita sorte para conseguir aprovar um projeto de restauração, são muitos municípios que participam, é muita concorrência”, explica.
Se o município não tem dinheiro e o governo federal não consegue atender a todas as demandas, o governo estadual também não tem condições de bancar a restauração, ainda que ajude por meio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais- IEPHA MG. O Instituto tem diversas ações preservação e recuperação do patrimônio histórico e, no caso de Araçuaí, mesmo sem recursos para restaurar os prédios eles fornecem apoio técnico e institucional, enviando arquitetos, engenheiros e outros especialistas para contribuir no tombamento.
A população, por sua vez, mesmo tendo marcada em sua memória a tragédia, parece ter se acomodado a situação: “na verdade não houve uma campanha por parte da prefeitura [na época da enchente] de reconstruir essas casas. E a população também não reclamou muito por causa disso, com o tempo foram entendendo que o que aconteceu em Araçuaí foi uma situação que nenhum de nós daria conta de resolver”, explica Zé Pereira.
Jackson lembra ainda que existe um grande interesse financeiro de alguns dos proprietários dos prédios históricos, que querem vender seus lotes ao invés de permitir o tombamento, o que acaba atrapalhando as tentativas de preservação: “São poucas pessoas realmente interessadas na questão do tombamento, tem gente aqui que se falar que vai tombar a casa dela no outro dia o edifício está no chão”, lamenta.
Hoje dividida em “parte alta” e “parte baixa” a cidade vai passando os seus dias, com a maior parte das atividades comerciais na parte de cima, que também vem sendo cada vez mais ocupada com lotes residenciais. A histórica parte mais baixa, por sua vez, mantêm alguns poucos comerciantes que ainda “resistem” e vai sendo tomada pelas drogas, que lentamente vão ocupando os prédios abandonados, lugares que tem atraído muitos consumidores durante a noite.
As flagelas do esquecimento e o medo de novas enchentes são cicatrizes que permanecem na cidade. Mesmo com a Barragem de Irapé, construída em Berilo há alguns quilômetros rio acima e que a população tem considerado como “garantia” contra enchentes, há aqueles que sabem que a situação não é tão simples assim e têm medo de voltar para a parte baixa.
O despertar na cultura
Mas além de suas cicatrizes a cidade vive uma florescência cultural que a torna um verdadeiro pólo, no Vale e no Brasil. Corais, grupos de teatro, a tradicional Folia de Reis, o artesanato e até um cinema (algo não muito comum nas cidades do Vale) instalado na parte histórica pelo governo federal: o “Cinema Meninos de Araçuaí”. Tudo isso (e mais um pouco) faz parte da rica cultura da cidade que já é reconhecida nacionalmente.
Um dos mais tradicionais da cidade, o coral “Trovadores do Vale”, fundado pelo frei holandês Francisco Van der Poel, ou simplesmente Frei Chico, já tem mais de quarenta anos com apresentações em várias cidades de Minas e dois cd´s gravados. Além dos típicos corais (ao todo são oito) a cidade também conta com três grupos teatrais de sucesso. Zé Pereira, hoje produtor cultural, foi e continua sendo um dos grandes protagonistas da história do sucesso do teatro araçuaiense. Com 16 anos começou a participar do grupo Vozes, onde atuou durante muito tempo e inclusive ganhou prêmios (já mais velho), como o do Festival Mineiro de Teatro. E ele garante que o segredo do sucesso vem do Vale: “nós usamos a linguagem que queríamos usar, a linguagem do Vale, onde chegarmos com ela vamos arrebentar”.
Zé Pereira também construiu o Centro Cultural Luz da Lua, em um prédio onde funcionava o antigo cinema da cidade. Desde oficinas de teatro a exibições semanais de cinema o centro cultural é um dos maiores promotores da cultura regional. Seu principal projeto é o festival nacional de teatro “k-iau em cena” que ocorre todo ano e traz inúmeras atrações, inclusive internacionais, à cidade.
Tamanha riqueza cultural atrai até quem vem de longe: “Vimos como o vale possui realmente uma riqueza cultural, como ele tem que ser descoberto ainda”, conta a produtora cultural Márcia Sielski sobre sua primeira viagem a Araçuaí. Márcia não se importa de percorrer os 1280 Km de Ponta Grossa, no Paraná, para vir prestigiar o trabalho do Luz da Lua. Ela faz parte de uma produtora cultural paranaense chamada Mosaico Ação Cultural e conheceu o trabalho de Zé Pereira em 1994 durante o Festival Nacional de Teatro Amador, em Ponta Grossa. Desde então ela vem trabalhando em parceria com o Luz da Lua para promover, por meio de editais do Governo Federal, a cultura do Vale: “em todos os projetos do K-iau estamos presentes porque é uma oportunidade de todos os artistas que vem aqui de ver este encantamento. Ninguém imagina que uma cidade com 36 mil habitantes possa ter além de uma riqueza cultural tão grande uma produção como tem a produtora Luz da Lua” ressalta.
E assim, da cultura que exala de seus dedicados artistas e artesãos às ruínas que fazem lembrar porque o Jequitinhonha é, política e socialmente, o “vale do esquecimento” Araçuaí vai (re)escrevendo sua história. Desafio que pode não ser fácil, mas que já vem rompendo barreiras, pelo menos as geográficas.
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